Segunda-feira, 28 de Julho de 2008

Pensar e fazer, pesquisar e desenhar

foto: Valerie Bennett  Architectural Association


Esta semana o Fernando Lara, em seu Parede de Meia, nos reportou sobre sua participação numa conferência em Oxford sobre o ensino de arquitetura no mundo. Os debates do encontro partiam de uma provocação: "Architecture would be better off without schools of architecture" - algo como "A arquitetura estaria melhor sem as escolas de arquitetura". Em sua apresentação - devidamente resumida no blog - Fernando defende em primeiro lugar a existência das escolas, e coloca uma posição partilhada por vários arquitetos-professores com quem já conversei, que coloca o atelier como espinha dorsal do ensino de arquitetura. E vai além, em dizer que a "pesquisa científica pode e deve ser jogada dentro do studio para apoiar em sólidas fundações o processo criativo.". Para concluir, Lara alerta: "o imperativo da sustentabilidade me parece ser a última chance de costurarmos pesquisa e projeto no ensino de arquitetura.".

Pois bem. No encontro de blogueiros lembro de termos conversado sobre uma onda corrente no Brasil e no mundo, que é a contratação de professores de arquitetura em regime de dedicação exclusiva. Meu comentário no post começou da seguinte forma: "A tal dedicação exclusiva que você tanto critica é no meu ver uma faca de dois gumes. Por que? Por um lado ela cria uma classe de professor que supostamente terá suporte financeiro e acadêmico para desenvolver pesquisa acadêmica. Por outro, e aí eu concordo com você, obriga o arquiteto a se ausentar da prática profissional - mundo real - em que ele terá seu escritório, prestará consultoria, tocará obras ou servirá alguma empresa ou governo. Assim, como que um professor pode ensinar uma profissão sem exercê-la plenamente?"

Voltando os olhos para a minha escola, fica clara essa faca de dois gumes. O Mackenzie só passou a promover pesquisas acadêmicas quando, há poucos anos atrás, criou-se duas classes de professores além dos contratados apenas pelas horas/aula. São os PPPs (30h/sem) e PPIs (40h/sem). Tais regimes obrigam o professor - a grosso modo - a cumprir metade de suas horas em aulas regulares e outra metade em pesquisas acadêmicas-científicas, atividades de extensão ou administrativas. Com isso professores e universidade costuram um compromisso profissional para produção de conhecimento acadêmico além do básico da sala de aula o que, em teoria, incrementa qualidade no ensino.

O Mackenzie sempre foi conhecido pelo pragmatismo traduzido na pesada carga horária em aulas de projeto. Este é um dos motivos que fez dele uma escola forte e até hoje forma arquitetos mais estruturados para o projeto. Ou seja, embora haja 25 grupos de pesquisa em arquitetura atuantes na escola, esta ainda é uma prática pouco difundida entre os seus estudantes. No meu comentário para o Fernando, coloco a dúvida: como que a pesquisa científica pode ser costurada ao projeto dentro do atelier?

A esmagadora maioria destes 25 grupos trata de temas ligados à história e à catalogação e análise de produções arquitetônica de diversos tempos. Poucos são voltados para a investigação tecnológica - que no meu ver tem uma ligação mais direta com o projeto. A questão principal, no entanto, é que muito pouco do que se produz nas pesquisas chega ao aluno da graduação, dentro da sala de aula, do atelier. Por outro lado, o estudante que não está ligado a nenhum destes grupos geralmente não está instrumentado para essa investigação científica.

Com gerações e gerações de arquitetos pouco acostumados ao elo entre pesquisa e projeto, há uma forte tendência em segregar tais atividades dentro da escola. O reflexo já é visível na cidade e a produção acaba ressaltando o fazer, colocando em segundo plano o pensar. Seja na sustentabilidade ou não, tá na hora de percebermos no Mackenzie que o simples fazer não é mais suficiente para atender as solicitações para a arquitetura.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

ovo x galinha (I)

Semana passada o Estadão publicou um texto do arquiteto Jorge Wilheim em um de seus editoriais que traz a tona para o grande público o que já se diz há tempos nos circuitos de arquitetos, nas faculdades e debates sobre a profissão: a pobre produção arquitetônica promovida pelo mercado imobiliário em São Paulo.

Segundo Wilheim, o mercado oferece "simulacro de paisagem urbana, simulacro da sociedade reduzida a condôminos, simulacro de cidade." e que "o mercado, mesmo usando sua mão escondida, (...) ainda não conseguiu apagar a lembrança de que a propriedade a ser vendida se situa numa cidade real, gerando um simulacro, exclusivo e excludente."

Vai além: "Ao percorrer a cidade, vejo, com espanto, o resultado disso: um descalabro arquitetônico, na profusão grotesca e gigantesca de fachadas sem caráter, uma acúmulo de mediocridade preenchendo a paisagem urbana, num completo descaso com a rua em que cada prédio se localiza, ao atulhá-la com trânsito que não pode suportar e uma seqüência de grades, muros, muralhas com guarita, por vezes parecendo-se com presídios. Expressão voraz e predatória do privado não-urbano, recusa da cidade e da vida societária, exclusão ostensiva de tudo o que é público, de todos."

Comenta, no entanto, que "Há, portanto, salvação possível." baseando-se na atuação minoritária "de empreendedores mais generosos e o trabalho sério de excelentes arquitetos". E conclui que temos que dar alguns passos para fugir da mediocridade:

"Do lado dos empreendedores - embora a lógica do sistema os leve a não se preocuparem com a cidade, e sim apenas com o lote -, tomar consciência de que o campo de ação de seu negócio ficará mais restrito e mais caro à medida em que, por sua ação predadora, ruas e bairros forem sendo destruídos." (...)

"Do lado dos arquitetos, estranho o silêncio obstinado das entidades de classe, dos críticos de arquitetura, da imprensa especializada."

Continua...

ovo x galinha (II)

Em resposta ao artigo de Jorge Wilheim, Mão escondida projeta arquitetura medíocre, publicado no Estadão em 02/07/08, o Secovi-SP coloca hoje uma resposta no caderno de variedades do jornal.

O Sindicato se mostra bastante ofendido com as afirmações de Wilheim e ataca: "Arroga para si a função de juiz, e condena os demais profissionais por pertencerem a uma lógica de 'não se preocuparem com a cidade.'"

O manifesto elenca ainda uma série de contraposições às colocações do arquiteto, sendo que a última chama muito a atenção, ao dizer que Wilheim "Esquece de citar que a legislação urbanística da cidade (na qual ele teve participação quando colaborou nos governos dos prefeitos Paulo Maluf, Celso Pitta e Marta Suplicy) cria inúmeros problemas na concepção de projetos imobiliários, a saber: a) espalhamento da cidade, aumentando a circulação de pessoas (leia-se trânsito carregado); b) baixa ocupação onde já existe infra-estrutura instalada; c) inviabilidade de projetos em pequenos terrenos; d) insuficiente foco na solução de ocupações clandestinas; e) dificuldade operacional para parcerias público-privadas; f) elitização dos projetos, com difícil viabilidade para habitação popular; g) excessiva complexidade, acarretando incerteza jurídica e dificildades para o funcionário municipal encarregado das aprovações.".

O Secovi-sp conclui assim: "Entendemos ser melhor a mão oculta da cidadania que manifesta sua opinião, por meio da participação efetiva e da livre concorrência, do que a mão visível do Estado a impor legislação urbana complexa e ultrapassada.".

***

Finalmente esta discussão vem a tona. Usando o maniqueísmo típico brasileiro, quem é o "vilão" da cidade: os incorporadores imobiliários, que com sua cegueira capitalista não se importam em construir uma cidade segregadora com edifícios mal desenhados, seguindo o puro interesse individual; os arquitetos, que de tão mal organizados não conseguem nem se posicionar frente às questões arquitetônicas e urbanísticas, quem diria então agir; o governo, burocrata e incompetente, que cria um plano diretor confuso, mal planejado e insustentável; ou os habitantes-consumidores, cuja ignorância e paranóia veneram edifícios neo-clássicos, empreendimentos com clube completo e segurança reforçada, mas que sofrem diariamente no insuportável trânsito da nossa cidade???

Ou....

Quem nasce primeiro? O ovo ou a galinha?

Domingo, 6 de Julho de 2008

Mudança de hábitos e contra partida




A Lei Seca na cidade de São Paulo ainda causa estranhamento de uma lei severa em um país pouco adepto a rigidez institucional. A restrição em si, em não permitir uma gota de álcool antes de dirigir e suas conseqüências penais podem ser exageradas. Talvez seja um exagero necessário para fazer uma lei dessa "pegar". Só que, como sempre, o governo aplica uma medida restritiva sem criar alternativas.

Acontece que aqueles que gostam de sair para beber com os amigos ou dividir um vinho com uma boa companhia ficam sem poder voltar para casa. O conselho moralista de "um da turma não beber" pode até funcionar, mas quem costuma fazer esse tipo de programa torce o nariz quando tem que ser o motorista.

Metrô, trem e ônibus deveriam ter seus horários operacionais repensados para atender a nova demanda boêmia. Só que a melhor alternativa quando queremos voltar para casa no final da noite é o taxi. Serviço muito utilizado em lugares civilizados ou nem tanto no mundo inteiro, aqui em São Paulo o taxi é um seviço que acaba sendo elitista por causa do seu alto custo.

Segundo o site da prefeitura, a cidade hoje tem cerca de 32.000 taxis licenciados, o que para o governo atende a demanda. Além disso o preço é tabelado pelo município, não restando muita flexibilidade a taxistas e passageiros. Assim, a contra partida mais razoável à Lei Seca deve ser repensar a situação deste serviço - o preço e o número de licensas - a fim de barateá-lo e popularizá-lo. Com mais taxis rodando a concorrência seria maior, o preço cairia e mais gente usaria, o que em determinada escala compensa uma perda inicial que os motoristas sofreriam com a queda de preço. E todo mundo poderia beber à vontade, voltar para casa sem aprontar no trânsito. Menos os taxistas.

Domingo, 25 de Maio de 2008

A culpa é do metrô

Com o trânsito paulistano e o sistema nervoso dos seus motoristas caminhando em direção ao colapso, tem se debatido muito na mídia em geral sobre qual é a solução para São Paulo. Como se a resolução do problema fosse simples como uma cirurgia na cidade. São convidados especialistas para darem entrevistas e responderem as perguntas anciosas dos motoristas alucinados e jornalistas superfluos. Disso, extrai-se algumas máximas, que reinam quase que como verdades dogmáticas. Fala-se em corredores de ônibus, ampliação do rodízio, pedágios urbanos, ciclovias... Mas principal delas é: "a solução definitiva para São Paulo é mais metrô."

Ora, todos sabemos (não só os arquitetos) que isso não está errado. De fato temos muito menos metrô do que merecemos e ele começou a ser construido cerca de 50 anos depois que um primeiro projeto de trem subterrâneo foi feito para a cidade.

O que me chama a atenção e incomoda em toda essa tentativa de debate é a recusa em ir ao ponto essencial do nosso problema que envolve baixa densidade, ocupação espraiada, lógicas de mercado: a maneira como ocupamos nosso território. Algo já bastante explorado nas discussões acadêmicas, mas que por algum motivo não chega aos portais de internet e programas de televisão. Ou seja, mais uma vez usamos um bode espiatório para lidar com nossos problemas. É muito fácil dizer que estamos ferrados porque nossa única salvação "realmente eficaz" custa milhões por km, demora e causa impactos estruturais na cidade; enquanto continua-se a construir uma cidade equivocada ao nosso redor.

Quarta-feira, 21 de Maio de 2008

Ciclo de Debates: Mover-se em São Paulo

Na Casa da Cidade - Rua Rodésia, 398 - Vila Madalena.

Do site http://www.casadacidade.org.br/programacao

Ciclo de Debates "Mover-se em São Paulo"

O ano começou e a cidade travou. Esta foi a sensação que os paulistanos tiveram neste início de 2008. A paralisação da implantação do novo sistema de transporte coletivo integrado, iniciado no governo anterior, num momento de crescimento econômico e de facilidade para o financiamento de automóveis, levou ao agravamento alarmante das condições de mobilidade. Com cerca de mil novos veículos entrando semanalmente em circulação, São Paulo vem batendo, seguidamente, o recorde de congestionamento, colocando em questão sua própria viabilidade urbana e provocando o desespero entre os que aqui vivem e trabalham.

Neste contexto, a Associação Casa da Cidade, atenta aos problemas que afetam os paulistanos e dando continuidade ao seu programa de atividades, vai promover o Ciclo de Debates MOVER-SE EM SÃO PAULO, reunindo, em três debates, especialistas e cidadãos capazes de aprofundar a discussão sobre propostas capazes enfrentar de forma sustentável e definitiva um dos maiores problemas da cidade.

Este ciclo objetiva garantir um tratamento transversal para o tema da mobilidade, fugindo de um enfoque setorial e corporativo, buscando discuti-lo através de olhares diversos e de modo articulado com aspectos ambientais, de urbanismo, de modo de vida e de saúde. O ciclo foi organizado e será coordenado pelos professores Nabil Bonduki, da FAU-USP e coordenador da Casa da Cidade e Silvana Zione, da FAU-Mackenzie, especialista em transporte.

Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Encontro desvirtual

Encontro de blogueiros-arquitetos-ou-quase-isso no Bar Balcão (Melo Alves, Jardins), domingo, 18, às 19h.