
Esta semana o Fernando Lara, em seu
Parede de Meia, nos reportou sobre sua participação numa conferência em Oxford sobre o ensino de arquitetura no mundo. Os debates do encontro partiam de uma provocação: "
Architecture would be better off without schools of architecture" - algo como "A arquitetura estaria melhor sem as escolas de arquitetura". Em sua apresentação -
devidamente resumida no blog - Fernando defende em primeiro lugar a existência das escolas, e coloca uma posição partilhada por vários arquitetos-professores com quem já conversei, que coloca o atelier como espinha dorsal do ensino de arquitetura. E vai além, em dizer que a
"pesquisa científica pode e deve ser jogada dentro do studio para apoiar em sólidas fundações o processo criativo.". Para concluir, Lara alerta:
"o imperativo da sustentabilidade me parece ser a última chance de costurarmos pesquisa e projeto no ensino de arquitetura.".Pois bem. No encontro de blogueiros lembro de termos conversado sobre uma onda corrente no Brasil e no mundo, que é a contratação de professores de arquitetura em regime de dedicação exclusiva. Meu comentário no post começou da seguinte forma: "A tal dedicação exclusiva que você tanto critica é no meu ver uma faca de dois gumes. Por que? Por um lado ela cria uma classe de professor que supostamente terá suporte financeiro e acadêmico para desenvolver pesquisa acadêmica. Por outro, e aí eu concordo com você, obriga o arquiteto a se ausentar da prática profissional - mundo real - em que ele terá seu escritório, prestará consultoria, tocará obras ou servirá alguma empresa ou governo. Assim, como que um professor pode ensinar uma profissão sem exercê-la plenamente?"
Voltando os olhos para a minha escola, fica clara essa faca de dois gumes. O Mackenzie só passou a promover pesquisas acadêmicas quando, há poucos anos atrás, criou-se duas classes de professores além dos contratados apenas pelas horas/aula. São os PPPs (30h/sem) e PPIs (40h/sem). Tais regimes obrigam o professor - a grosso modo - a cumprir metade de suas horas em aulas regulares e outra metade em pesquisas acadêmicas-científicas, atividades de extensão ou administrativas. Com isso professores e universidade costuram um compromisso profissional para produção de conhecimento acadêmico além do básico da sala de aula o que, em teoria, incrementa qualidade no ensino.
O Mackenzie sempre foi conhecido pelo pragmatismo traduzido na pesada carga horária em aulas de projeto. Este é um dos motivos que fez dele uma escola forte e até hoje forma arquitetos mais estruturados para o projeto. Ou seja, embora haja 25 grupos de pesquisa em arquitetura atuantes na escola, esta ainda é uma prática pouco difundida entre os seus estudantes. No meu comentário para o Fernando, coloco a dúvida: como que a pesquisa científica pode ser costurada ao projeto dentro do atelier?
A esmagadora maioria destes 25 grupos trata de temas ligados à história e à catalogação e análise de produções arquitetônica de diversos tempos. Poucos são voltados para a investigação tecnológica - que no meu ver tem uma ligação mais direta com o projeto. A questão principal, no entanto, é que muito pouco do que se produz nas pesquisas chega ao aluno da graduação, dentro da sala de aula, do atelier. Por outro lado, o estudante que não está ligado a nenhum destes grupos geralmente não está instrumentado para essa investigação científica.
Com gerações e gerações de arquitetos pouco acostumados ao elo entre pesquisa e projeto, há uma forte tendência em segregar tais atividades dentro da escola. O reflexo já é visível na cidade e a produção acaba ressaltando o fazer, colocando em segundo plano o pensar. Seja na sustentabilidade ou não, tá na hora de percebermos no Mackenzie que o simples fazer não é mais suficiente para atender as solicitações para a arquitetura.